domingo, 20 de setembro de 2026
Cidades

Energia no Amazonas: geração, interiorização e avanço das fontes renováveis

A energia no Amazonas passou de um modelo concentrado em sistemas térmicos e dependentes de combustíveis para uma estrutura que reúne interligação ao Sistema Interligado Nacional, eletrificação rural e busca por fontes renováveis em áreas remotas.

A história da energia no Amazonas é marcada por uma contradição: o estado abriga uma das maiores redes hidrográficas do mundo, mas durante décadas teve grande parte do fornecimento elétrico baseado em usinas termelétricas e no transporte de combustíveis por rios e estradas. A distância entre os municípios, a baixa densidade populacional e a presença de comunidades ribeirinhas e indígenas tornaram a expansão da rede um dos desafios mais complexos do setor elétrico brasileiro.

Esse cenário começou a mudar em diferentes etapas. A Região Metropolitana de Manaus foi integrada ao Sistema Interligado Nacional (SIN) em julho de 2013, enquanto a eletrificação rural e de comunidades remotas avançou por meio de políticas públicas como o Luz para Todos e o Mais Luz para a Amazônia. No interior, porém, muitos municípios continuam dependentes de sistemas isolados, o que mantém elevado o custo de geração e reforça a necessidade de alternativas renováveis.

Da geração local à integração de Manaus

Durante boa parte da história do setor elétrico amazonense, Manaus e os municípios do interior foram atendidos por estruturas separadas. Na capital, a geração térmica ganhou importância para acompanhar o crescimento urbano e industrial. No interior, pequenas usinas também foram instaladas para atender localidades que não tinham conexão com grandes linhas de transmissão.

O modelo dependia de combustíveis fósseis, principalmente óleo diesel e óleo combustível, transportados por longas distâncias. A logística elevava os custos e aumentava a vulnerabilidade do abastecimento em períodos de cheia, seca ou dificuldades de navegação. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) descreve os sistemas isolados como estruturas afetadas pelo alto custo de geração, pela dependência do diesel e pelas dificuldades de transporte de combustível e equipamentos. (epe.gov.br)

A mudança mais importante para a capital ocorreu com a interligação Tucuruí-Macapá-Manaus. Em julho de 2013, o Amazonas passou a integrar o SIN por meio de uma linha de transmissão em 500 kV, com cerca de 1.400 quilômetros de extensão. A conexão permitiu ampliar o intercâmbio de energia com outras regiões e reduzir a dependência exclusiva da geração térmica local, embora a transição tenha exigido obras complementares e permanência de parte das usinas em operação. (ons.org.br)

O papel das termelétricas e do gás natural

A geração térmica não desapareceu após a conexão de Manaus ao sistema nacional. Ela continuou sendo utilizada para garantir segurança ao abastecimento, atender à demanda em momentos específicos e suprir localidades que permanecem fora do SIN.

Além do óleo diesel e de outros derivados de petróleo, o gás natural passou a ter papel relevante na matriz de geração da capital e de alguns municípios. O uso do gás permitiu substituir parte dos combustíveis mais intensivos em emissões, mas não eliminou os desafios econômicos e ambientais associados à geração térmica.

No interior, a situação é mais diversificada. Há municípios atendidos por termelétricas a gás natural, enquanto outras localidades dependem de usinas a diesel ou de soluções próprias. Dados de planejamento da EPE apontam que o Amazonas reúne dezenas de localidades em sistemas isolados e que, na maioria dessas estruturas, o fornecimento ainda é realizado por geração local a combustíveis fósseis. (epe.gov.br)

Interiorização e acesso à eletricidade

Levar energia ao interior do Amazonas não significa apenas estender cabos a partir da capital. Em muitas comunidades, os rios são as principais vias de acesso, e a distância entre as moradias torna economicamente inviável a construção de redes convencionais. Por isso, a interiorização combina linhas de distribuição, pequenas usinas, sistemas remotos e soluções individuais ou comunitárias.

O Programa Luz para Todos, criado em 2003 e relançado em 2023, tornou-se uma das principais políticas de expansão do acesso à eletricidade no meio rural e em regiões remotas da Amazônia Legal. O programa prioriza famílias de baixa renda, comunidades indígenas, quilombolas e tradicionais, além de escolas, unidades de saúde e outras estruturas comunitárias. (gov.br)

No Amazonas, a política alcançou comunidades urbanas, rurais e ribeirinhas. Em maio de 2026, o Ministério de Minas e Energia informou que o programa já havia beneficiado 161,5 mil famílias no estado, alcançando mais de 702,8 mil pessoas. Na mesma ocasião, foram anunciados novos contratos para atender mais de 18,7 mil unidades consumidoras em áreas rurais e remotas, com investimentos previstos entre 2026 e 2028. (gov.br)

A eletrificação modifica atividades cotidianas e econômicas. A energia permite conservar alimentos e medicamentos, operar equipamentos de saúde, ampliar o funcionamento de escolas e apoiar atividades como o beneficiamento de produtos agrícolas e extrativistas. No entanto, a instalação da rede não encerra o desafio: a continuidade do serviço, a manutenção dos equipamentos e a capacidade de pagamento das famílias também fazem parte da política de universalização.

Fontes renováveis em áreas remotas

A expansão das fontes renováveis ganhou importância porque muitas comunidades estão distantes das redes de transmissão e apresentam alto custo de abastecimento por diesel. A energia solar fotovoltaica é uma das alternativas mais estudadas, especialmente em sistemas de pequena escala, com baterias e equipamentos de controle.

Em vez de depender exclusivamente de um gerador a combustível, uma comunidade pode utilizar um sistema híbrido, combinando painéis solares, armazenamento e geração térmica de apoio. Esse arranjo reduz o consumo de diesel e pode melhorar a regularidade do fornecimento. Estudos apoiados pela EPE e pelo Ministério de Minas e Energia também analisam soluções híbridas, armazenamento de energia e o potencial de diferentes fontes para os sistemas isolados. (epe.gov.br)

A energia solar não é a única possibilidade. A biomassa e o aproveitamento de resíduos agrícolas ou florestais podem ser considerados conforme as características de cada localidade, desde que haja controle ambiental, disponibilidade regular de matéria-prima e capacidade de operação. A escolha da tecnologia depende de fatores como demanda, acesso, custo de manutenção, condições climáticas e participação da comunidade.

O desafio da transição energética

O futuro da energia no Amazonas envolve três frentes conectadas: ampliar a interligação onde ela for tecnicamente e economicamente viável, melhorar a eficiência dos sistemas isolados e acelerar a substituição parcial dos combustíveis fósseis por fontes renováveis.

A EPE já avaliou os benefícios econômicos da interligação de localidades isoladas do Amazonas. Segundo o estudo, a conexão de 14 localidades tende a reduzir o consumo de combustíveis e os custos associados à Conta de Consumo de Combustíveis. A interligação, porém, não substitui todas as soluções locais, porque muitas comunidades permanecem distantes das linhas de transmissão. (epe.gov.br)

Por isso, a transição energética amazonense não deve ser entendida apenas como a construção de grandes usinas ou linhas de alta tensão. Ela também depende de redes adequadas às características regionais, sistemas solares comunitários, armazenamento, capacitação técnica e planejamento de longo prazo. O desafio é garantir que a expansão do acesso ocorra com segurança, menor impacto ambiental e capacidade de sustentar o desenvolvimento das comunidades do interior.